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Mudando totalmente de ares, eu brasileira do interior de São Paulo, 30 anos casada e mãe do Enzo, mudei para a Itália com minha família.
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Veneto por mim
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Sexta-feira, Outubro 28, 2005
Gente, tenho evitado escrever pra não ficar um papo lamurioso, mas tenho que desabafar.
Tem horas que a gente dá vontade de jogar a tolha...
Hoje fui levar o Enzo no otorrino pra fazer o exame auditivo. A consulta estava marcada para as 9, eram 10:30 e eu esperava no hospital, sendo que o Enzo não para,
ficava rolando no cão, pondo a boca em tudo (ele deu de fazer isso agora). Quando finalmente o médico nos atendeu, ele fez um exame da garganta e nariz, e constatou
o óbvio ¿seu filho tem adenóide e amigdalas bem dilatadas¿. Eu faço tratamento do Enzo de que era pequenino, sei de tudo, estudei junto com a pediatra e o otorrino-
PEDIÁTRICO dele no Brasil e chegamos a conclusão (pois a argumentação dos pais também deve ser levada em consideração nestes casos) que não era caso de
cirurgia, pelo menos por enquanto. O médico me passou um tratamento para quando a crise tivesse muito exacerbada, a base de anti-histamínico e corticóide de uso
tópico nasal, e nas vésperas de vir pra Italia ele me disse que poderia levar o caso medicando a não ser que pela infecção as amigdalas e adenóide se tornassem um
risco geral pra saúde dele, se tivesse febre habitual sem outro motivo, mas ainda assim poderia recorrer antes de fazer a cirurgia de retirada uma raspagem que é um
processo menos traumático pra criança. Ele se preocupava também pelo fato do Enzo ter um histórico de alergia a muitos medicamentos e antibióticos e o refluxo
severo, já que nesta cirurgia a criança perde muito peso e o sistema imunológico se debilita.
Bem, aqui ele até tem as crises de rinite e fica com muita secreção, respira pela boca e sinto muita pena de ver ele assim. Mas sempre contornei o caso, sempre faço
lavagens nasais com soro, quando vem a crise e não tenho mais o que fazer dou a medicação, e no resto do tempo a homeopatia me vale. Assim vamos fazendo e não é
uma coisa que está o debilitando em seu quadro de saúde.
O problema que estamos passando agora é o que comentei em outros tópicos, a agressividade, agitação que ele tem passado. Fui procurar ajuda de uma neuro-
psiquiatra e agora me vejo obrigada a fazer uma cirurgia em meu filho, uma coisa que não tenho a certeza nem a segurança em fazer, ainda mais por aqui, que me
desculpem, não gosto de ficar metendo o pau na Italia pois estou morando aqui, mas pelo menos onde estamos os recursos não são lá essas coisas.
O otorrino ainda fechou o diagnóstico assim, num piscar de olhos, nem fez o exame que era pra fazer porque tinha muita gente e devo retornar, mas ele já deu o Parecer
dele ( o qual se eu não tivesse vivido grande parte de minha vida na área da saúde e conhecesse um pouco sobre a mesma até seria ingênua em aceitar):
-Seu filho pela adenoide e a amigdala junta muito muco nas fossas nasais e isso afeta a cabeça, ele tem toda esta reação de agitação e agressividade porque ouve tudo
um pouco atrapalhado. Aliás vc sabia que Hiperatividade vem dos problemas auditivos e nasais? Mas isso vai passar, vou prescrever algumas medicinas e no começo do
próximo ano o operamos e tiramos fora esse problema!
Gente é absurdo, tive que ouvir e me fazer por satisfeita, pois quando tentei argumentar sobre uma possível saída a cirurgia ele foi curto e grosso:
-Crianças e velhos, todo mundo discute o fato de fazer uma cirurgia por serem mais sensíveis e isso não existe, pelo contrário, eles sim que tem que operar o que se
deve pra não pegar mais infecções.
Pra acabar de ganhar o dia, tive que esperar até as 11:30 pra fazer uma timpanografia e confirmar que ele ouve e ainda discutir com a enfermeira mal educada que insistia
em me explicar porque passou tanta gente na frente do Enzo, que nesta altura chorava de fome, queria ir pra casa pois estávamos ali desde as 8:30 da manhã.
Agora vejam meu dilema, eu queria ver se tinha um acompanhamento pra ele, sei o que é o problema dele e queria uma terapia ocupacional, eu acho ele muito novo pra
medicamentos mas neste campo da TDAH têm-se muitas saídas com o tratamento psicológico, lí muito sobre o assunto e me sinto falida aqui, sem ânimos nem pra
discutir sobre o problema.
Deus me livre dizer isso que nem de longe é meu caso, mas agora entendo o porquê daqui da Italia acontecerem tantos casos de depressão materna, mães que matam
filhos (coisa que aqui acontece muito mais do que imaginam) e também de suicídios na infância. Com esta abordagem ineficaz e até mesmo displicente por parte dos
profissionais destas áreas o que mais poderiam querer.
Ainda comentei com o Eduardo, e se a gente tivesse passando por uma situação limite, já teria acontecido o pior. Fui tentar ajuda já fazem quase 2 meses e estou aqui
ainda, parada aonde comecei, com um diagnóstico de ¿operação de garganta¿ para resolver meus problemas!
É isso!!!
posted by ANAÍ SILVA TOBIAS
7:29 PM
Comments:
Quinta-feira, Outubro 20, 2005
Tanto tempo e ainda não terminei o meu balanço...
Mas hoje as palavras fluiram, e aproveitei a cabeça pra escrever.
Estou buscando a serenidade pra escolher caminhos.
É o mais difícil!
Por vezes a escolha se torna dura por haver muitas possibilidades, outras por não se enchergar muitas saídas... mas seja qual for o trajeto, em meio a alegrias ou a diversidades a escolha é sempre o pior da estória.
Ah! A dificuldade que temos em lidar com a perda... e a escolha por menor que seja sempre gera uma.
Do simples ato de escolher uma roupa pela manhã à mais complexa decisão, como a que tomamos eu e meu marido deixando nossa casa, geram uma nova estrada a seguir mas também um mundo deixado pra trás. Mas isso é vida!
O meu debate hoje é definir o que fazer porque algo não vai bem em nossas vidas, e isso sim é perigoso, olhando friamente e de fora deveria estar quase tudo caminhando: O Eduardo foi "efetivado" na empresa, explico melhor, na Italia de hoje, as empresas podem te contratar e depois irem renovando os contratos através de agências de emprego ou cooperativas. Raramente fazem um contrato direto e quando o fazem, ao término demitem. O ônus trabalhista aqui é muito alto, os impostos sobre os funcionários e ainda o fato que com um contrato indeterminado não se pode demitir aí os funcionários se aproveitam da situação pra gozar de dias em casa em falsas doenças, facilmente atestáveis pelos médicos italianos. Qualquer coisinha aqui os médicos afastam por 15 dias. No departamento de meu marido semana passada chegou a faltar 4 pessoas.
Mas voltando ao tema, esta semana eles efetivaram o Eduardo, ele não ganha tanto, mas pela realidade que vejo aqui (e não me refiro a estrangeiros não) estamos caminhando. Somente ele trabalhando aperta, a vida aqui é cara como já disse várias vezes, mas estamos aqui há só 1 ano e o lógico é pensar que aos poucos vamos melhorando.
Eu não consegui trabalhar ainda, mesmo o Enzo estudando está difícil conseguir algo part-time. Quando ele adoece tem que ter alguém em casa, mas volto a dizer que são dificuldades mais ou menos já previstas antes de virmos, ninguém começa o caminho por cima...
O lado financeiro pega, mas não é isso o principal. Sinto que algo não vai bem com a gente, estamos mais tristes, não sei se a falta dos nossos, não sei....
Tudo que pensamos em fazer, logo vemos com frustação que não vai dar, sempre surge algo, barreiras intransponíveis. Queria voltar a estudar, queria poder crescer.
Conversamos muito, fazemos planos e depois vemos tudo desmoronar.
Se cumulam ainda muitos "incidentes" no nosso dia-a-dia que juntos fazem um peso enorme.
O Enzo está passando, penso eu até por sentir no ar a angústia dos pais, uma dificuldade emocional grande. Levei-o a pediatra que o encaminhou a uma neuro-psiquiatra. Só que tudo aqui pára na burocracia.
A neuropsiquiatra quer um exame auditivo (que ele já fez no Brasil) pra descartar que a alteração comportamental possa ser devida a algum problema auditivo, o que não creio pois ele aprende tudo muito rápido, já fala e canta em italiano e interage com os amigos da escola, mas enfim... o exame foi marcado somente pra final de outubro e enquanto isso fico esperando.
Estou correndo atrás de isenções para não ter que pagar pelo tratamento do Enzo, o que antes era gratuito, agora pelas novas leis terá que ser pago o ticket como chamam aqui. Eu no momento não tenho condições de arcar com os custos e estou entre assistentes sociais, o que outra vez esbarra no descaso: A assistente me mandou fazer uma declaração que só podia ser feita esta semana, voltei com a declaração e descobri que a assistente resumindo o assunto só vai voltar a dar expediente dia 4 de novembro. Tudo volta ao ponto de partita.
E eu vou seguindo firme, diante do meu filho e de meu marido tenho que ser um pilar, uma rocha firme, pelo primeiro porque ainda tem uma vida pra se fortificar e pelo segundo porque a vida acabou por enfraquecê-lo. Mas e eu, também mostro sinais claros de cansaço, já não consigo levar o nosso mundo nas costas.
Meu marido tem respostas prontas pra nossos anseios, mas eu tenho dúvidas quanto a argumentação dele.
Ele quer que deixemos o Enzo por um tempo no Brasil para que possamos "dar uma varrida na casa" e depois vermos o que é melhor, voltar a viver no Brasil ou ficar por aqui mesmo porém com uma estrutura financeira e emocional mais sólida.
Só a hipótese me arrepia, deixar o Enzo pra mim, mesmo que por um tempo, é largá-lo. Sei que com minha mãe e sogra ele terá todas as necessidades supridas. Mas e os pais, o que é para uma criança ficar longe dos pais. Não sei as sequelas que isso possa acarretar. Até onde o provisionar recursos financeiros pra um futuro vai valer a pena pra ele.
Ainda mais agora que levanta-se a possibilidade de que ele, assim com eu, sofra de hiperatividade.
Ser hiperativo hoje em dia é fashion, a moda e facilidade que se definem crianças hiperativas nos nossos dias. Parece até que a síndrome é um luxo dos tempos modernos. Eu sei na pele o sofrimento que dá a uma criança, a incompreensão por vc ser mais ligado que o mundo, o sentir-se diferente...
Os rótulos virão e eu quero estar ao lado dele pra vencermos juntos, e ele provar pra ele mesmo como eu fiz e faço todos os dias, que somos pessoas perfeitamente sociais, que Deus nos deu sim inteligência emocional, mas que devemos ter a serenidade de buscá-la dia a dia dentro de nós.
Só que por outro lado, o Eduardo não deixa de ter razão vivemos um momento crucial, precisamos definir nossa situação, do jeito que estamos não temos a estrutura perfeita para ajudá-lo, algo não está bem e precisamos descobrir o que é pra botar pra fora de casa....temos que saber entre tantas chamas qual está queimando nossa torre e qual é somente um pequeno incêndio perfeitamente controlável. Ha la necessità di cambiamento!!!!
É isso!!!!!
posted by ANAÍ SILVA TOBIAS
7:01 PM
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Domingo, Outubro 09, 2005

posted by ANAÍ SILVA TOBIAS
8:10 PM
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